Minha avó – nota de falecimento
Posted by: Rachel in Dizer o que, tags: esclarecimento, famíliaMinha avó sempre me mandou pentear o cabelo e levar um casaquinho. Para me convencer que era feio menina falar palavrão, me explicou o significado de cada um quando comecei a dize-los. Minha avó sempre me mandou apagar a luz e tomar banho, mas eu nunca fiz nada disso. Mentira. Banho eu tomo, desde que ela me deu uma surra por me recusar a ir para o chuveiro. Foi a única vez que ela me bateu. Ela foi uma mulher paciente, criou duas netas sem precisar bater.
Minha avó não era cozinheira de mão cheia, mas estava sempre disposta a preparar as comidinhas que as netas gostavam. A minha era pudim de leite. Ela sempre levava as netas para passear: praia, pracinha, bondinho de Santa Teresa, até Metrô, quando foi inaugurado no Rio de Janeiro. Mas acho que esse passeio foi mais pra ela do que para as netas, porque ela achava que não viveria para ver o Metrô pronto.
Como toda avó faz, ela me mimava. Trazia um copo d´água e pegava as coisas pra mim, não que eu não pudesse levantar e pegar sozinha, claro. E sempre que eu pedia, fazia cafuné até eu pegar no sono.
Depois que cresci ela achava que eu fazia muitas coisas erradas, mas mesmo assim me acolheu na casa dela, com marido, gato e tudo mais. Aí foi o tempo de retribuir tudo que tinha feito por mim. Cozinhei pra ela, servi água e levei pra passear de carro. Ela sempre ficava impressionada como eu dirijo bem.
Agora ela tem Alzheimer e não sabe mais quem eu sou. Mesmo assim, vou amá-la para sempre.
(Post originalmente publicado aqui nesse blog, em 04/12/2008.)
Minha avó faleceu essa noite, aos 92 anos.








Entries (RSS)