
Comecei a trabalhar formalmente com 16 anos de idade. Isso foi há bastante tempo, numa época em que não existiam celular e e-mail, e nem todo mundo tinha telefone em casa.
Enquanto morava com a minha mãe, utilizava o telefone dela. Depois fui morar com a minha avó e não tínhamos telefone. Nem assim eu me achava no direito de fornecer aos amigos e parentes o telefone do meu local de trabalho. Para mim, e para todo mundo, trabalho era lugar para trabalhar, não para resolver assuntos diversos. Assuntos pessoais eram resolvidos fora do local de trabalho e fora do horário de trabalho.
Aí vieram os celulares e os computadores ligados à Internet e as coisas se misturaram.
Como o telefone vai junto com o trabalhador, ele se acha no direito de utilizá-lo para falar com amigos e parentes, mesmo durante o horário de trabalho. Os amigos e parentes também se acham no direito de ligar, mesmo sabendo que naquele horário Fulano está trabalhando. O fenômeno se repete em relação ao computador para todos que o utilizam no trabalho. Li nesta matéria que 87% dos brasileiros utilizam a Internet no trabalho com fins pessoais.
Não sou a favor do radicalismo sobre qualquer assunto, mas já sofri na pele o problema de ter um funcionário que deixava de trabalhar para cuidar de assuntos pessoais. No meu escritório todos os computadores têm acesso à Internet e jamais estabeleci qualquer norma sobre utilização. Muito pelo contrário. Pedi às pessoas que instalassem MSN para que pudéssemos utiliza-lo para nos comunicar internamente. Aí há uns 3 anos contratei uma menina para auxiliar de serviços gerais. Quase 100% das tarefas que a encarreguei de fazer necessitavam do computador. No começo tudo correu muito bem, até que comecei a perceber falhas e queda na produção. Quando procurei o motivo, descobri que no início do expediente ela passava quase uma hora abrindo e-mails com aqueles (irritantes) pps. No resto do dia ficava batendo papo com amigos no MSN enquanto trabalhava. A atenção dividida em duas atividades diferentes ocasionava os erros. Como se isso já não fosse suficiente, recebia inúmeras ligações de amigos e parentes no celular e no telefone do escritório durante todo o dia. Como nunca havia necessitado chamar a atenção de um funcionário por esses motivos, fiquei constrangida, afinal, pra mim é muito natural separar trabalho e vida pessoal. Comecei pedindo a ela que deixasse para utilizar o computador para e-mails e bate papo quando não estivesse ocupada. Não adiantou. Pedi que deixasse para fazê-lo no final do expediente. Também não deu certo. Quando já estava procurando para comprar um software que bloqueasse acesso ao MSN, ela pediu demissão. Ufa!
Até hoje não voltei a enfrentar esse problema e espero que nunca mais aconteça. As pessoas que trabalham comigo sabem que assuntos pessoais no PC são resolvidos quando não existe mais nenhum serviço a ser feito. A mesma noção não se repete com relação ao telefone e ainda vejo funcionários tratando de assuntos pessoais durante o expediente. Ninguém é perfeito.
Todos os dias vejo pessoas reclamando de bloqueios e restrições impostos pelas empresas em que trabalham. Convido-as a se colocarem na posição do empregador, cujo empregado passa pelo menos uma hora do dia falando no celular e fazendo coisas pessoais na Internet, como pagar contas, ver e-mails, ler feeds, checar os scraps no Orkut. O empregador paga por 8 horas diárias de trabalho. Por que deveria aceitar apenas 7 horas de decicação do funcionário? Como empregador você aceitaria? Pense nisso antes de reclamar do patrão.