Dizer o que?

Um blog sobre cotidiano, vida e direito

Exemplo

Acho que nós consumidores brasileiros, estamos tão acostumados a sermos maltratados pelos fornecedores de produtos e serviços, que ficamos surpresos quando uma empresa faz o que é certo.

Minha mãe fez aniversário outro dia. Pretendia mandar um presente pelo correio, mas fiquei com receio de não chegar a tempo, mesmo enviando com antecedência. Continue reading

Gays poderão ter parceiro como dependente em plano de saúde


Figura: Adreson

Na semana passada a ANS – Agência Nacional de Saúde, publicou norma que estabelece que as operadoras de planos de saúde são obrigadas a inscreverem como dependente também pessoa do mesmo sexo do titular do plano. (fonte: Terra)

Pode parecer pouco, mas foi um passo importante para a sociedade brasileira.

Conheço muita gente que “torce o nariz” para esse tipo de coisa, sem perceber que negar direitos a certas pessoas apenas por causa da opção sexual é tão absurdo quanto era negar às mulheres o direito de votar, o que aconteceu até pouco tempo atrás no Brasil.

Cada um escolhe com quem vai se relacionar ou não. É decisão pessoal que não envolve preconceito. O preconceito passa a existir quando algumas pessoas acreditam que aqueles de quem não gostam não devem ter certos direitos.

Já está mais do que na hora da sociedade brasileira deixar de lado o preconceito e passar a assegurar aos relacionamentos homoafetivos os mesmos direitos assegurados aos relacionamentos heteroafetivos.

Obrigada

Quando fui a um enterro pela primeira vez, minha avó ensinou que eu deveria dizer aos parentes do falecido “meus pêsames”. Aquela frase soou estranha nos meus ouvidos. Alguma coisa nela era esquisita. Mesmo assim, obedeci e disse isso a todos os parentes que estavam no velório.

Hoje eu enterrei minha avó. Nos últimos dois dias essa frase me foi dita por algumas pessoas e então descobri porque ela soou estranha há anos atrás.

Minha avó estudou apenas até a 4ª série. Ainda assim, ela me ensinou muitas coisas, uma delas foi perder uma pessoa. Claro que com quase 40 anos de idade já vivenciei a morte de pessoas queridas, mas minha avó me ensinou que é diferente quando a gente ama.

Na verdade, essa lição foi a mais demorada, já que o enterro apenas oficializou uma morte que começou há alguns anos, depois que ela foi diagnosticada com alzheimer. A evolução da doença foi muito rápida. Um dia ela levou um tombo e cortou a cabeça. Fui com o carro atrás da ambulância e fiquei com ela durante o atendimento inicial, quando o médico fez uma série de perguntas, às quais ela respondeu prontamente. A alta ocorreu uma semana depois, mas a pessoa que saiu daquele hospital já não era mais a minha avó. Ela não falava, não andava, não conhecia as pessoas. Em casa ela teve uma certa melhora, no entanto, meses depois ela não sabia mais quem eu era. Em alguns momentos de certa lucidez reconhecia os filhos e algumas outras pessoas, mas nunca mais soube quem eu era.

Sempre foi muito duro pra mim visitá-la e não ser reconhecida. Aquela não era mais a minha avó, a pessoa que me conhecia melhor que meus pais simplesmente porque se interessava em conhecer. Tenho certeza que meus pais não fazem idéia de que adoro rock pesado. Minha avó sabia, embora não desconhecesse o nome daquele gênero musical. Meus pais nem desconfiam que tenho tatuagens. Ela descobriu. No entanto, nos últimos anos ela nem sabia mais meu nome.

Não fiz muitas visitas desde então e muitas vezes chorei antecipadamente a perda. Afinal, nem tudo é como a gente quer. Minha avó sempre disse que queria morrer de um dia para o outro, sem ficar doente, dando trabalho aos outros. Não aconteceu assim. Ela sempre gostou dos dias de sol. Ontem pedi a Deus que hoje desse a ela um bonito dia de sol. Também não aconteceu assim. O dia foi feio, chuvoso e triste. Hoje eu queria dar um beijo nela de despedida, queria chorar na frente de todo mundo sem ter vergonha, porque era meu direito chorar pela minha avó. Mas não pude fazer nada disso. Os filhos optaram por um enterro sem velório. O caixão chegou fechado ao cemitério e foi direto para a sepultura. Eles dispensaram qualquer espécie de homenagem ou oração. Simplesmente a colocaram no túmulo e fecharam. Eu poderia ter reclamado e exigido meu direito de chorar, mas desisti para não me indispor com a família. Ao menos isso me deu a chance de guardar na memória não um rosto abatido e sem vida, mas o rosto vivo e sempre sorridente da minha avó.

Nos últimos dois dias eu descobri que “meus pêsames” é uma frase estranha porque fala de algo que não tem volta. A pessoa que a gente ama vai embora e NUNCA MAIS vai voltar.

P.S.: Ontem e hoje recebi mensagens no Twitter e comentários de apoio e solidariedade aqui no blog. Não tenho palavras para dizer como foram importantes para mim. Jamais saberei agradecer adequadamente, por isso no Twitter me limitei a dizer apenas “obrigada”, palavra que repito agora do fundo do coração.

Minha avó – nota de falecimento

Minha avó sempre me mandou pentear o cabelo e levar um casaquinho. Para me convencer que era feio menina falar palavrão, me explicou o significado de cada um quando comecei a dize-los. Minha avó sempre me mandou apagar a luz e tomar banho, mas eu nunca fiz nada disso. Mentira. Banho eu tomo, desde que ela me deu uma surra por me recusar a ir para o chuveiro. Foi a única vez que ela me bateu. Ela foi uma mulher paciente, criou duas netas sem precisar bater.

Minha avó não era cozinheira de mão cheia, mas estava sempre disposta a preparar as comidinhas que as netas gostavam. A minha era pudim de leite. Ela sempre levava as netas para passear: praia, pracinha, bondinho de Santa Teresa, até Metrô, quando foi inaugurado no Rio de Janeiro. Mas acho que esse passeio foi mais pra ela do que para as netas, porque ela achava que não viveria para ver o Metrô pronto.

Como toda avó faz, ela me mimava. Trazia um copo d´água e pegava as coisas pra mim, não que eu não pudesse levantar e pegar sozinha, claro. E sempre que eu pedia, fazia cafuné até eu pegar no sono.

Depois que cresci ela achava que eu fazia muitas coisas erradas, mas mesmo assim me acolheu na casa dela, com marido, gato e tudo mais. Aí foi o tempo de retribuir tudo que tinha feito por mim. Cozinhei pra ela, servi água e levei pra passear de carro. Ela sempre ficava impressionada como eu dirijo bem.

Agora ela tem Alzheimer e não sabe mais quem eu sou. Mesmo assim, vou amá-la para sempre.

(Post originalmente publicado aqui nesse blog, em 04/12/2008.)

Minha avó faleceu essa noite, aos 92 anos.